A existência humana e sua vocação infanticida

Jorge Antunes

 

Domingo de carne-seca completa. Restaurante Xique-xique. Na mesa ao longe, pequenos lábios carnudos com batom carmim fascinante. Parece uma anã, linda. Mas as proporções do corpo são perfeitas. Um casal está à mesma mesa. Digo a Mariuga que vou olhar de perto… É uma menina de uns três anos de idade!

Ezio Flavio Bazzo já desmascarou, em alguns de seus livros, os transtornos pessoais e a conhecida sociopatia. Ele denuncia a cumplicidade da sociedade com os pervertidos. Nessa denúncia ele vai incluir esse problema grave exemplificado pela menininha do restaurante. “Não é de hoje que os abutres da indústria, do comércio e do marketing voltaram suas propagandas enganosas para o mundo infantil. Influenciadas por esses marqueteiros asquerosos e por mães imaturas e histéricas, meninas de até dois anos de idade estão cada vez mais dependentes das fábricas de cosméticos, cada dia mais vaidosas, atraentes e sedutoras. Sedutoras de quem?”

Realmente, deu-me vontade de perguntar à mãe e ao pai da mesa ao longe: – Quem vocês pretendem ver seduzido pela menininha?

Ezio Flavio Bazzo é psicólogo clínico de grande experiência e reputação. Seus ouvidos já foram atentos e pacientes receptores de lamentações de tudo aquilo que costuma ser qualificado como escória e gentalha: histéricos, pervertidos, mendigos, putas, putos, assassinos, pedófilos, sádicos, masoquistas, pederastas, proxenetas. Suas primeiras conclusões são aterradoras: todos querem se vingar de agressões sofridas na infância e a inveja é o grande mal.

Mas sua matéria de observação, estudo e análise não se resume aos esparsos problemas de aberração, alienação, perversidade ou auto-flagelação que lhe procuram no consultório. Ezio Bazzo costuma sair pelas ruas do mundo observando, furtiva ou descaradamente, as pessoas e as culturas “estranhas”. Ele nos mostra que o “estranho” está por toda parte. Bazzo confessa que pretende “sugerir uma nova cara da realidade”. Consegue.

A toda hora vemos na televisão declarações de vizinhos de monstros que dizem frases do tipo: “Eu nunca podia imaginar que ele fosse capaz disso!”; “Seu comportamento era normal”; “Ele sempre foi muito afetuoso e cordial!”; “Era uma mãe exemplar!” Ezio, com textos, relatos, exemplos históricos e argumentos verdadeiros, cínicos e surpreendentes, nos convence de que as civilizações sempre estiveram à beira do absurdo e do caos. A nossa civilização não escapa desse tipo de avaliação.

Às vezes Ezio Bazzo é cruelmente pessimista e faz generalizações atrevidas e indevidas. Mas nesses momentos ele nada mais é do que um literato sedutor. Nas generalizações descabidas ele deixa de ser um psicólogo clínico para ser um psicólogo cínico e isso é, simplesmente, maravilhoso. Quando aponto aspectos cínicos no autor estou, evidentemente, me referindo à sua atitude diogenesiana de quem professa uma grande descrença, e até mesmo desdém, pela humanidade. No livro Bazzo relata suas andanças por Brasília, Rio, Madri, Granada, Sevilha, Tanger, munido de sua ácida lanterna a procura de um homem: só encontra monstros.

Bazzo chega até mesmo, numa espécie de paroxismo literário, a afirmar que nossa civilização se divide em duas partes: “os bufões da ereção e o gueto militante e histeróide dos enrabados”. Mas ele nunca demonstra preconceitos e aversões a opções sexuais. Pelo contrário, ele respeita a tudo e a todos. Apenas faz constatações. A sordidez e a baixeza às vezes se evidenciam em suas conclusões. Mas, o quê fazer? A realidade é assim! Ele apenas nos joga na cara essas terríveis realidades.

Em seu desprezo anarquista pela sociedade gerontocrática, que aniquila, deseduca, oprime, reprime, maltrata e abusa das crianças, ele vai desancar uma série de qualificações agressivas. Assim, vai desfilar aos olhos do leitor deste livro os mais interessantes comentários sobre nossa civilização: “babel de cínicos”, “alienados crônicos”, “mundo infame de filhos-das-putas”, “comedores de crianças”, etc.

A crueldade que o ser humano dedicou sempre às crianças, o escritor vai identificá-la como eterna na história da humanidade. Sempre acobertado ou tolerado pela sociedade e pelo Estado, o infanticídio, com os mais diferentes matizes, vai se evidenciar por todo o tempo e por todo o espaço. “O incesto, a pedofilia e a prostituição infantil são apenas detalhes do desatino e do infanticídio generalizado que sempre marcou a história fisiológica e cretina do mundo” – afirma Ezio Bazzo em sua perfeita e completa visão panorâmica da história.

Ele nos mostra que o infanticídio generalizado não deveria surpreender a nenhum dos crápulas detentores do poder que, via de regra, surram seus filhos em casa. Para demonstrar suas afirmações, o autor nos reporta a práticas do Baixo-Império romano e até mesmo varre a hipocrisia dos livros ditos “sagrados”: “Hiel reconstruiu Jericó sobre o sacrifício de seus filhos”; “Jefté ofereceu a filha depois de obter uma vitória sobre os amonitas”; “David, para aplacar a ira de Jeová, sacrificou sete parentes de Saul”;…

Ezio nos mostra que agressões estúpidas contra crianças são praticadas ainda nos dias de hoje, sob a proteção de tradições culturais. Ele nos relembra o fato de que os antigos hebreus sacrificavam crianças no fogo e que os judeus ainda hoje praticam, e continuarão a praticar, a circuncisão.

Práticas culturais de diferentes grupos sociais acabam por desafiar a tolerância dos mais esclarecidos. No final de 2003, e certamente também no decorrer de 2004, vamos seguindo atônitos as descobertas da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a exploração sexual de crianças e adolescentes. Cada um dos Estados da região Norte vai sendo visitado pelos deputados da CPI. As primeiras apurações mostraram que a exploração sexual nessa área tem características próprias. Em geral os aliciadores buscam meninas de origem indígena menores de 17 anos, atendendo à demanda de turistas estrangeiros. A deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) declarou à imprensa em novembro de 2003: “A situação se agrava porque, pela cultura indígena, as meninas podem ter vida sexual assim que atingem a puberdade”.

As culturas diferentes, que devem ser respeitadas segundo os preceitos mestiços da diversidade cultural, nos coloca em cheque, em becos sem saída. Esparta precisava de grandes guerreiros. Então, como deixar de respeitar o costume espartano de jogar na ribanceira, para a morte, seus bebês defeituosos? Respeitar essas culturas, quando elas estão longe no tempo, até que é muito fácil. Se não fosse assim, os evangélicos já teriam rasgado o Velho Testamento com suas crueldades e infanticídios. Mas quando a cultura bizarra está próxima, no tempo ou no espaço, aí então nosso amor pela diversidade cultural se revela falso e hipócrita. Em atitudes espartanas, Hitler também queria uma sociedade pura e forte, sem aleijados. Como admitir, em pleno século XXI, a infibulação e a ablação do clitóris?

Como é sabido, ainda hoje a prática é usada em alguns países da África. É tradição cultural! Os amantes da diversidade cultural e da tolerância devemos respeitar essa prática? Ela consiste na ablação parcial do clitóris e dos lábios vaginais, e sua costura. Deixa-se apenas uma pequena passagem, para tornar impossível o coito. Numa cerimônia que é bela para os muçulmanos e aterradora para os nossos hábitos civilizados, uma mulher segura a menina pelas costas, enquanto ela se debate e grita desesperadamente. Outras duas mulheres mantêm suas pernas abertas. A própria mãe da menina usa uma faca ou um caco de garrafa, para a cirurgia sem qualquer assepsia ou anestesia. Em seguida, os grandes lábios são aproximados e costurados, de forma a vedar a ferida, deixando apenas um minúsculo orifício, no qual se coloca um pedaço de bambu para impedir o fechamento total. As pernas da criança são amarradas, para evitar movimentos que impeçam a cicatrização. A seguir ela é colocada em uma esteira até que urine. Isso prova que o orifício não está totalmente bloqueado. A cerimônia faz parte da cultura de muitos países: Afeganistão, Etiópia, Somália, Djibuti, Sudão, Egito, Tanzânia, Nigéria, Iêmem, Arábia Saudita, Senegal, Iraque, Jordânia, Síria e Argélia. Com a fuga de refugiados e as imigrações, a tradição tem sido levada para a Europa e os EUA. Tem também sido trazida ao Brasil por emigrantes muçulmanos.

Infanticídio brando, seria uma forma de qualificar aquela prática cultural. Outra prática cultural-religiosa semelhante é a circuncisão, que continua a acontecer nos dias de hoje. Esse rito de iniciação dos meninos, que consiste em cortar o prepúcio, é um ato simbólico da castração. O ritual acontece por ordem milenar de Abraão. Quando este tinha 99 anos de idade, Deus ordenou que cortasse seu prepúcio. Veja-se que Deus não foi tão sacana com Abraão, esse personagem santificado por Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Deus só deu a ordem corta-prepúcio a Abraão, quando este já era senil, depois de já ter feito um filho na empregadinha de sua mulher Sara, que era estéril. A empregadinha Agar, deu Ismael à luz. Aqueles que se ocupam da exegese bíblica não usam a expressão “empregadinha”. Eles preferem usar a palavra “serva”, porque “escrava” é palavra muito forte. Abraão circuncisou-se quando tinha 99 anos e meteu a faca no pinto de Ismael quando este tinha 13 anos. Abraão circuncisou Isaac quando este tinha oito dias de vida e, até hoje, pintinhos e mais pintinhos têm a pele cortada em cerimônias humilhantes.

É evidente que – confesso –, ao comentar dessa forma algumas passagens bíblicas, estou contagiado pela irreverência corrosiva de Ezio Flavio Bazzo. Esta é outra qualidade de seus livros. Ele impregna o leitor de lucidez crítica, sendo até mesmo capaz de, através do exemplo, criar novas mentalidades sem papas na língua.

O texto de Bazzo corre solto e natural como um rio calmo, corajoso e avassalador. As porradas e os socos na cara que o texto, às vezes, nos dá, se justificam: o rio calmo, caudaloso, vai acumulando energia, o leitor se sente atraído pelo abismo e nele cai, como quem cai na realidade. Parece que tudo acontece ao correr da pena, ou ao correr ágil dos dedos no teclado. O próprio autor declara que pretendeu sempre usar o mínimo de moralismos e nada de academicismos exaustivos. Ele mesmo confessa que usa apenas um método: o vagabundo e aglomerativo. Mas, convenhamos, – discordemos de Bazzo –, o livro vem a ser uma coletânea de crônicas-papers impregnadas de uma espécie de hiper-academicismo. As hipóteses, os argumentos, as revisões bibliográficas, a metodologia, as demonstrações e as conclusões estão sempre crivadas de balas mortíferas e dilacerantes. Esses torpedos são os pés de páginas que, de momento em momento, interrompem o discurso nos trazendo ramificações e reminiscências históricas. Cada nota de rodapé é um flash-back histórico que nos dá uma alfinetada, um beliscão ou um murro no estômago.

Vejamos um exemplo desses socos no estômago. Em um de seus textos polêmicos o autor discorre sobre as noites no perímetro de Patpong, em Bangkok. Ele nos conta que quem passa por ali “tem cem por cento de chances de cair nas mãos de um taxista ou de um policial proxeneta que lhe oferecerá as mais extravagantes perversidades, entre elas sempre meninas e meninos ainda sem pentelhos”. Até aí nada de novo, porque em mil outros cantos do mundo, como em Manaus e Rio Branco, cenas como essas são muito comuns. Mas Ezio Bazzo prossegue seu texto levando-nos à França do final do século XX. “Mesmo Paris, lá pelos anos 80, apesar da demagogia de Fraternité, Egalité & Liberté, mantinha na clandestinidade e no métier prostitutivo, seis ou sete mil crianças (mais meninos do que meninas)”.

Ao final de sua denúncia um numerozinho sobrescrito nos faz com que, curiosos, demos uma olhada no rodapé correspondente. Então recebemos o soco memorial: “No tão citado Banquete de Platão (que há muito tempo se transformou no livro de cabeceira até dos pederastas tupiniquins) se pode ver que o coito anal era comum entre professores e alunos (lá os professores enrabavam literalmente seus alunos), e que os gregos apreciavam em seus meninos o que apreciavam nas meninas: poucos pêlos, delicadeza e imaturidade. As crianças escravas, principalmente os meninos, tinham quase o dever de servir sexualmente aos velhos pederastas”.

O rio de palavras de Ezio avança. Às vezes o rio se mostra poluído. Mas a poluição do rio vem sendo produzida pelo próprio ser humano comedor de criancinhas cuja história Bazzo nos conta. O leitor se sente cada vez mais atraído pela imensidão que promete, a cada momento, novas paisagens e descobertas. A palavra flui, dá solavancos, encontra rochas duras no caminho, adivinhando ribanceiras, cascatas, quedas, calmarias, verdades e vergonhas que a intelectualidade em particular e a humanidade em geral, envergonhadas, em geral tentam esconder.

O homem, das mais diversas sociedades, épocas e civilizações, de que Ezio fala, é intelecto, inteligência e transcendência, mas é também, e acima de tudo, corpo. Aí está o problema. O corpo humano, segundo Ezio Bazzo, é “este troço de carências, ossos e fluídos”. O autor vai mais longe, afirmando que o corpo “é mais ou menos como um coágulo despencando ladeira abaixo, lançando sêmen e óvulos por todos os lados, numa tentativa desesperada de perpetuar-se e de vingar-se”.

Nessa ânsia desesperada de sobreviver, perpetuar-se e vingar-se, fica uma coleção enorme de perversidades seculares de cunho sado-masoquista. Nas guerras, então, as diversões cruéis dos corpos chegam a absurdos e bizarrices inimagináveis, em que o infanticídio se faz presente. O escritor nos relembra que, em pleno século XX, a humanidade ficou estarrecida com o massacre de Sabra e Chatila, em que crianças palestinas foram degoladas ou empaladas. Não é à toa que o Estado brasileiro e, em particular, o Itamaraty, não autorizam acesso aos documentos secretos da Guerra do Paraguai. No apagar das luzes do governo FHC foi decretado, apesar de legalmente já se ter cumprido o prazo de carência, que permanecem secretos os documentos referentes à guerra acontecida há mais de 130 anos. Ezio Bazzo nos relembra os relatos de José Julio Chiavenatto em seu livro Genocídio Americano: a guerra do Paraguai. São relatos impressionantes acerca dos acontecimentos do dia 16 de agosto de 1869, quando foi massacrado um exército de 3.500 crianças paraguaias. Crianças de seis a oito anos agarravam-se às pernas dos soldados brasileiros e estes as degolavam impiedosamente. No Paraguai o 16 de agosto, por essa razão, é o Dia da Criança.

A criança é reverenciada, sim, pelo escritor Ezio Flavio Bazzo. Ele é um credenciado narrador das imposturas de um mundo pedófilo e infanticida. Este livro é obra de arte de um sarcasta irreverente que foi capaz de ir ao Museu do Prado, em Madri, para tentar descobrir o que se passava nas cabeças de pintores dos séculos XVI e XVII que, em seus quadros, davam tanto destaque aos “putti”. Os putos, os garotos do lusitanismo popular, estão por demais presentes, sempre nus, nos quadros de Tiziano, Rafael, Del Sarto, Caliari, Gentileschi, e tantos outros. “Um exagero de nus infantis e quase só meninos, de bundinha rechonchuda e cabelos cacheados”. Sem nenhuma certeza, mas com muita desconfiança, o escritor fez a visita peculiar ao Museu, apenas com uma curiosidade: a de “saber se houve ou não malignidade, luxúria e malícia nos quadros e nos pincéis daquele tempo”.

Nessa visita de Ezio Bazzo ao Museu do Prado, certamente o Paraíso Terrestre, o Jardim das Delícias e o Inferno do Músico, o famoso tríptico de Hiéronymus Bosch, ainda estavam escondidos nos porões secretos do Museu, no atelier da Dra. Rocio D’Avila, para as restaurações que duraram mais de cinco anos. Neste estonteante e maravilhoso trabalho de Bosch, que foi contemporâneo de Tiziano e Rafael, encontramos milhares de personagens bizarros, mas nenhuma criança. Lá estão cenas de homens de quatro que recebem flores no ânus, um homem que ama um porco, um adulto nu com o corpo trespassado pelas cordas de uma harpa gigante, um flautista com a flauta doce enfiada no cú, mas não existem “puttis” nos quadros. Esse fato seria um indício para possíveis conclusões. Enquanto Rafael Sanzio, à época, trabalhava para o Papa Julio II, e enquanto Tiziano pintava sob encomenda do Duque de Ferrara, Bosch estava metido em confrarias secretas, confabulando contra a acumulação de riquezas produzida pelo mundo feudal. Ou seja, Bosch estava do lado dos trabalhadores livres.

Para tentar comparar montruosidades do passado com algumas daquelas outras do presente, Ezio dedica um capítulo do livro à tauromaquia. Vai a Sevilha e assiste uma tourada. Cenas abomináveis são cruamente descritas pelo escritor. Na arena, o homem faz uso da bestialidade a pretexto de acabar com o instinto bestial.

A bestialidade, contida no infanticídio, na pedofilia, na zoofilia e na gerontofilia, de que o autor trata, está sempre, ainda nos dias de hoje, a levantar suspeitas sobre os instintos ditos humanos. A fabricação de monstros está sempre presente, nunca se sabe se por obra e graça da própria natureza ou se da sociedade. Seguindo o curso da história, Bazzo passa dos pintores dos séculos XV e XVI, para as associações dos compra-crianças do século XVII. Lembra que o romance O Homem que Ri, de Victor Hugo, é inspirado na impressionante e inacreditável atividade, acobertada pelo Estado, que consistia em comprar crianças para deformá-las fisicamente. Após terem cortados seus narizes, rasgadas suas bocas, os rostos deformados a ferro em brasa, quebradas suas colunas vertebrais, as crianças eram vendidas às cortes, aos sultões e aos papas, para alimentar as atividades de saltimbancos e bobos da corte.

A crueldade humana para com as crianças vai chegar a um extremo no século XVII, quando a igreja proíbe mulheres de participar do coro. A solução é a castração de crianças, para que cresçam homens que farão as vozes agudas da polifonia coral. Ezio Bazzo nos leva a esse mundo masoquista e infanticida, com uma ironia e uma leveza ácida que surpreendem o leitor. Ezio não deixa por menos e clama: “Que se danem os culhões e que se salve a arte! Devia ser a premissa escamoteada dos papas, dos bispos e dos regentes daquela época”.

Os castrati italianos existirão, por incrível que possa parecer, até o século XIX. Aqui Ocidente e Oriente se encontram culturalmente, porque os eunucos, os homens castrados, eram os guardas dos haréns.

Ezio Flavio Bazzo, apesar de toda a sua crueza e deboche narrativos, se revela um literato de primeira grandeza. Sua arte de escrever, conteudisticamente, ultrapassa a irreverência de muitos outros autores. Eu diria que ele coloca no chinelo, por exemplo, os poemas de Guerra Junqueiro, as peças teatrais de Qorpo Santo e os artigos de Léon Gambetta. O dedo em riste de Ezio está sempre apontado para o clero, mas também para o poeta, o livro sagrado, o fanático, o religioso, o toureiro, o comerciante, o industrial, o educador, o acadêmico, a família e o Estado.

Se ideológica e conteudisticamente o escritor é rico, formalmente ele vai até mais longe, com uma fineza e uma maestria que deleita qualquer leitor ávido de uma boa narração e de uma boa crônica. A pena de Ezio passeia encantada por paisagens, praças, hotéis, becos e situações impressionantes em Sevilha, Granada, Tanger, Marrocos, Katmandu e Paris.

Ao ver um menino sendo surrado pelo pai, numa cidade do Marrocos, Ezio Bazzo larga o formalismo para se abraçar desesperadamente, sem meias palavras, às suas convicções e suas dúvidas. Imediatamente ele se lembra das fantasias de flagelação estudadas por Freud. Durante a surra evidenciam-se o costume da criança às porradas e o prazer dos marroquinos que olham a cena. O mundo pedófilo e infanticida precisa ser salvo! Assim, o escritor chega até mesmo a interrogar a existência humana: “Goza aquele que está apanhando… goza aquele que está batendo… e gozam aqueles que assistem a tortura… Porra! Mas se for assim… o que é o ser, além da mais pura e da mais legítima perversidade?”

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