A repetição e a eloquência eletroacústica

Prof. Dr. Jorge Antunes
Universidade de Brasília – antunes@unb.br

 

Resumo: Este trabalho avança no estudo dos recursos retóricos utilizados na música eletroacústica, especialmente naquele que faz uso da figura sintática chamada epanalepse, própria da literatura e do discurso verbal. Para ilustrar o estudo são analisados trechos de duas obras eletroacústicas: uma obra do brasileiro Tim Rescala e outra do canadense Francis Dhomont. O uso da repetição expressiva de objetos sonoros, objetos musicais e elementos musicais em geral, sem qualquer intenção de uma estética minimalista, evidencia a prática inconsciente de uma retórica eletroacústica. 

Palavras-Chave: epanalepse, música eletroacústica, música figural, retórica musical.

Electronic epanalepsis: the expressive repetition, non-minimalist, in electroacoustic music

Abstract: This paper advances in the study of rhetorical resources used in electroacoustic music, especially that which uses the syntactic figure called epanalepsis, usual in literature and verbal discourse. To illustrate the study it’s presented an analyzis of parts of two electroacoustic compositions: a work of the brazilian composer Tim Rescala and other of the canadian composer Francis Dhomont. The use of expressive repetition of sound objects, musical objects and musical elements in general, without any intention of a minimalist aesthetic, shows a unconscious practice of an electroacoustic rhetoric.

Keywords: epanalepsis, electroacoustic music, figural music, musical rhetoric.

 

  1. Introdução 

       Marcus Fabius Quintilianus, que viveu no século I, deixou-nos a magistral De institutione oratoria, um tratado de dois tomos que, até hoje, é uma referência no estudo da Retórica. Inconscientemente, nomes consagrados da história da música eletroacústica vêm se impondo, conquistando audiências e opiniões críticas favoráveis, através do uso de técnicas retóricas velhas conhecidas da cultura antiga grega. Essa descoberta se revela um filão que nos descortina um mundo de relações que poderão dar lugar a uma nova e importante teoria semiológica da música.

       Encontramos que algumas construções eletroacústicas usam sintaxes que se identificam com as figuras de linguagem a que Quintiliano chama de Retóricas. “O segundo gênero de Figuras, chamadas Retóricas, excede muito em força ao antecedente (Gramaticais). Pois não consistem no Gramatical da língua, mas comunicam aos mesmos pensamentos novas graças, e novas forças.” (QUINTILIANO, L.IX, C.III,  III)

       No capítulo III do Livro IX, Quintiliano continua o estudo da “Elocução Figurada”, detendo-se nas “Figuras das Palavras”. É no Artigo I desse capítulo que encontramos as principais figuras, “que se fazem por acrescentamento”: anáfora, epístrofe, poliptóton, reduplicação, diácope, simploce, epanalepse, epânodo, anadiplose, sinonímia, exergásia, polissíndeto e gradação.

       O uso expressivo da repetição, tal como usado na oratória, vem sendo praticado no repertório da música eletroacústica. A anáfora, a epístrofe e o poliptóton são algumas dessas figuras que, por meio da repetição de objetos musicais, tem permitido ao compositor tornar enfático o discurso musical.

A identificação destas três figuras de linguagem, anáfora, epístrofe e poliptóton, em obras eletroacústicas de diversos momentos da segunda metade do século XX, no início do século XXI e em diferentes compositores de diferentes gerações, desvenda um campo de pesquisa que pode enriquecer o conhecimento do fenômeno da comunicação estética, na medida em que se evidenciam elementos de uma arte da retórica musical. (ANTUNES, 2006, p. 8).

       O compositor de música eletroacústica além de pretender convencer e comover, não apenas praticando o puro deleite sonoro, trata muitas vezes de tentar seduzir o ouvinte. A presente pesquisa volta-se à busca e à identificação de elementos de linguagem que denotam evidências de uma “eloquência eletroacústica”.

 

  1. Figuras 

       A teoria das figuras está presente, como centro das atenções, na retórica clássica. Entendamos como figuras as formas expressivas peculiares que são usadas sobretudo pelos poetas e que, por isso mesmo, são consideradas como desvios com relação à linguagem normal.

       Mas o paradoxo da retórica consiste em que as figuras são abundantemente usadas na língua usual. Além disso, “é quase impossível definir a norma com respeito à qual se efetua o desvio” (LÁZARO CARRETER, 1982, p. 79).

       Para contornar o paradoxo, parece ser mais conveniente, em uma perspectiva neorretórica, caracterizar a figura “como uma distância existente entre signo e sentido, como espaço interno da linguagem” (GENETTE, 1966, p. 57).

       Ao entrarmos no campo da retórica musical eletroacústica, estamos inevitavelmente penetrando na investigação das figuras de dicção do objeto sonoro, das figuras verbais do significante eletroacústico e das figuras de pensamento na sintaxe com objetos musicais. 

 

  1. Epanalepse 

       A epanalepse é uma figura de linguagem, do tipo sintática, que consiste na repetição de uma ou várias palavras para reforçar a ideia que se deseja expressar.

“Divertem-nos a atenção os pensamentos, suspendem-nos a atenção os cuidados, prendem-nos a atenção os desejos, roubam-nos a atenção os afetos”
(Pe. Antonio Vieira, Sermões, I, p. 645)

“De declínio em declínio; e de declínio
em declínio, com a gula de uma fera,

quis ver o que era, e quando vi o que era
vi que era pó, vi que era esterquilínio!”
(Augusto dos Anjos, Poema Negro)

“Abenámar, Abenámar
moro de la morería

el día que tú naciste
grandes señales había.”
(Anônimo, Abenámar y el rey don Juan, Espanha, século XV)

“Chove, chove na casa so probe
e no meu corazón tamén chove.”
(Celso Emilio Ferreiro (1912-1979), Galícia)

Iba a buscar a Don Cuadros, a Don Cuadros el traidor;
y allá de fuera a hallar junto del emperador.
(Anônimo, El infante vengador, Romance cavalheiresco,séc. XVI) 

 

  1. Epanalepse em Tim Rescala 

       O compositor Tim Rescala nasceu no Rio de Janeiro em 1961. Sua obra Midistudo II  é para eletrônica ao vivo e foi composta em 1991. Sons pré-gravados foram editados e processados em dois samplers que são ligados a um teclado midi. Assim, o intérprete –o próprio compositor– tocou a obra lendo a partitura por ele escrita com notação tradicional, mas com produção sonora cuja matéria prima é o ruído de pedaços de papel de diferentes tipos. A peça tem 10 minutos de duração.

       Na obra encontramos uma frase com a figura da epanalepse no segmento de 20 segundos situado entre os momentos 3:38 e 3:58.

       Um objeto sonoro (elemento 1), com duração menor que um segundo, é formado de ruídos iterativos com grande densidade horizontal do tipo acumulação. Esse objeto sonoro é repetido ao longo da frase, para reforçar, de modo enfático, a ideia musical.

 

       As repetições são os elementos 2, 3 e 4. Em cada repetição o objeto sonoro recebe pequena transformação em sua quantidade de informação e em sua altura, tal como as variações de inflexão de uma palavra repetida em um frase literária em que se usa a figura sintática da epanalepse.

       Após as repetições, o discurso toma a forma de uma argumentação sonora contínua e conclusiva. Com um glissando descendente da massa sonora, a frase vai desembocar num ponto final seco: uma partícula do objeto repetido.

       O elemento 1 tem 0,8 segundos; o elemento 2 tem 0,10 segundos; o elemento 3 tem 0,6 segundos; o elemento 4 tem 0,8 segundos.

       Na mesma obra encontramos outra frase com o uso da figura sintática epanalepse. Ela está no segmento de 32 segundos compreendido entre os momentos 6:08 e 6:40.

       Aqui o objeto sonoro que vai ser repetido é uma sequência, com duração total de 1,2 segundos, de quatro golpes de timbres metálicos, iguais dois a dois, cada um com 0,3 segundos de duração dispostos no tempo como 4 colcheias em um andamento de semínima igual a 98.

       Antes de apresentar o objeto sonoro que iniciará a frase, o compositor apresenta, isoladamente, os elementos sonoros que comporão o objeto, tal como se quisesse “soletrar”, por assim dizer, a palavra que será repetida. Esta soletração é feita duas vezes, uma após a outra, com construções simétricas.

       Após a apresentação desses elementos, o objeto de quatro ataques se repetirá enfaticamente algumas vezes, para em seguida dar lugar a um diálogo denso e estereofônico, entre os dois canais, que desembocará numa progressão de caráter conclusivo. No decorrer da progressão mais uma repetição suge como reminiscência.

 

  1. Epanalepse em Francis Dhomont 

       O compositor canadense Francis Dhomont nasceu em 1926. Ensinou composição eletroacústica na Universidade de Montreal e se divide com trabalho musical na França e no Canadá.

       Sua obra Phonurgie, que tem uma duração de 12’30”, foi composta em 1998 e recebeu o primeiro prêmio em 1999 no 3º CIMESP.

       Na composição encontramos o uso da epanalepse no segmento de 20 segundos compreendido entre os momentos 2:43 e 3:03.

 

       A frase se inicia com um som de altura variada que se desmancha rápido em uma cascata, dando lugar a um som contínuo que permanecerá. A expressividade da frase é construída com elementos que se superpõem ao som iterativo contínuo de altura média. Esse som contínuo serve de fundo para os elementos breves em primeiro plano. Um desses elementos vai se repetir, a cada momento com inflexão e dinâmica diferentes, e com intensidade crescente.

       O som grave e rugoso que se repete, com 4 intervenções principais, dá caráter de epanalepse ao discurso, que vai se desvanecer ao final com o decaimento do som de fundo. A insistência do objeto sonoro repetido enfatiza a ideia musical. A intensidade alta de sua última aparição é um ponto culminante do discurso.

 

  1. Conclusões 

       Nossa pesquisa nesse domínio tem sido feita com obras de compositores vivos, com os quais mantemos diálogo constante. Seus testemunhos atestam que são espontâneas, inconscientes e intuitivas muitas das construções sintáticas de suas obras. O sucesso de público, a expressividade e a comunicabilidade das obras estudadas podem estar ligadas ao uso de figuras de linguagem tais como a estudada aqui. A epanalepse, assim, é uma figura de construção que pode se enquadrar entre os recursos importantes da eloquência eletroacústica.

       Preocupados com a questão da comunicabilidade, alguns compositores têm abraçado novas estéticas que diminuem o nível de complexidade da obra, muitas vezes mediocrizando o discurso musical. Verificamos, graças ao atual estudo em que este artigo se insere, que na música eletroacústica muitos compositores mantêm o nível de complexidade, sem concessões à vulgaridade, e que mesmo assim conseguem sucesso no processo da comunicação e identificação com o grande público. O caminho para isso tem sido, muitas vezes de modo inconsciente, a adoção de recursos retóricos que garantem o convencimento, a persuasão e a sedução auditiva. O uso de figuras de linguagem tem sido a estratégia para isso.

 

Referências

ANTUNES, Jorge: Anáfora, Epístrofe e Poliptóton: identificação de figuras de linguagem na música eletroacústica, no âmbito da retórica e da eloquência, com base em significações do tipo “persuasão”.

Cadernos de Semiótica Aplicada. ISSN 1679-3404. Volume 4, Número 1 − junho de 2006. Disponível em <http://seer.fclar.unesp.br/casa/article/view/598> Acesso: 12/03/2012.

GENETTE, G.: Figures I. Paris: Seuil, 1966.

LÁZARO CARRETER, F.: Cómo se comenta un texto literário. Madri. Cátedra, 1982.

QUINTILIANO, M. Fábio: Instituições Oratórias. Tradução de Jerônimo Soares Barbosa. 2 Tomos. São Paulo: Edições Cultura, 1944.

Jorge Antunes formou-se em violino, composição e regência. Em 1961 se destacou como precursor da música eletrônica no Brasil, ao mesmo tempo em que ingressava no curso de Física da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi). Realizou estudos pós-graduados em composição no Instituto Torcuato Di Tella de Buenos Aires. Estudou no Instituto de Sonologia da Universidade de Utrecht, com uma bolsa do governo holandês, e no Groupe de Recherches Musicales de l’ORTF, onde atuou como compositor-estagiário sob a orientação de Pierre Schaeffer. Fez o Doutorado em Estética Musical na Sorbonne, Universidade de Paris VIII, tendo Daniel Charles como orientador. Ingressou em 1973 no corpo docente da Universidade de Brasília. Foi Professor Titular de Composição Musical na UnB até 2011, quando se aposentou. Continua vinculado àquela Universidade, como Pesquisador Sênior. Obteve vários prêmios nacionais e internacionais. Tem vários CDs, DVDs e livros publicados. É membro da Academia Brasileira de Música e Presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica. Suas obras são publicadas por importantes editoras internacionais: Salabert, Breitpkof&Hartell, Gerig, Ricordi, Sistrum, Billaudot e Suvini Zerboni.

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