Cultura por um triz com um governo Cristovarrudoriz

Opinião,Correio Braziliense, p.13
Brasília, sexta-feira, 31 de dezembro de 2011

Jorge Antunes
Maestro, compositor, professor da UnB – antunes@unb.br

 

O governo que está sendo montado no Distrito Federal tem uma cabeça grande e achatada, mãos enormes, é muito pesado, tem eletrodos atravessados no pescoço e dá indícios de que terá movimentos desajeitados. Ou seja, é um monstro. Essa criatura franksteiniana ameaça assombrar os nossos próximos quatro anos, com os mesmos fantasmas que nos aterrorizaram nas duas últimas décadas. O monstro tem pedaços do governo Roriz, do governo Cristóvam e do governo Arruda. O cristovarrudorizismo se evidencia: vemos que nos primeiros escalões são colocados nomes que serviram àqueles governos anteriores.

A criatura, evidentemente, se voltará contra o criador. Assim, não nos surpreendamos se manifestações estudantis vierem a ser reprimidas com cassetete e cavalaria. A Orquestra do Teatro Nacional certamente vai ser ameaçada de extinção, sem a promoção de concursos que completem seu quadro desfalcado. De olho na mente doentia do monstro, a Polícia Federal certamente vai iniciar uma nova operação, que pode ser batizada de Operação Hulk. Esse nome convém, em razão das questões envolvendo o verde, o PDOT e a especulação imobiliária. Revivendo os governos Roriz e Cristóvam, um ou dois operários grevistas assassinados também podem vir a ser incluídos no roteiro. Aguardemos também, é claro, o inefável e nefasto “Temporadas Populares”.

A expressão “Temporadas Populares” foi cunhada em 1965 pelo Maestro Eleazar de Carvalho, no Rio de Janeiro, quando ele dirigia a Orquestra do Teatro Municipal. Ela designava a série de concertos gratuitos, ou com preços populares, que levavam o povo ao Teatro, democratizando o acesso à boa música. Até transporte gratuito era oferecido ao povo pobre. O Teatro, hoje centenário, promovia temporadas de ópera. Para um estudante ou um trabalhador pobre, qualquer ingresso é difícil de ser pago. A direção do Teatro sabia disso e, democraticamente, promovia as Temporadas Populares. Assim eram chamadas as récitas em que as óperas eram apresentadas para a gente comum do povo. Nas récitas de assinatura lá estava o público esnobe, engravatado. Mas uma semana depois os excluídos também poderiam fruir os espetáculos de arte total.

A partir do século XVI os senhores de engenho forjaram uma sociedade em torno da monocultura: a cana-de-açucar. Neste nosso século XXI os senhores do poder, sem engenho, tentam formar uma sociedade em torno da monocultura: a arte popular de consumo. Em 1998 os janeiros de Brasília passaram a ser preenchidos com espetáculos de artistas globais e medalhões da indústria cultural. Era a versão popularesca e demagógico-petista das Temporadas Populares. O público era formado exclusivamente de advogados, funcionários públicos, professores e estudantes burgueses. A imprensa, consumida pelo mesmo tipo de público, alardeava o sucesso da promoção. Assim, o GDF considerava que o projeto estava dando certo. O círculo vicioso se formava.

No Temporadas Populares petista, que mediocrizou a vida cultural candanga no final do século XX, os shows eram estrelados por artistas globais da indústria massificante. Mas a prata da casa não era esquecida: artistas locais eram convidados a abrir o show principal. Ou seja, antes de ter acesso à atração vinda de fora, o público entrava pela porta limpando os pés do ouvido no capacho candango. Não faltavam artistas locais que, na ânsia de ter, por alguns minutos, um lugar ao sol, aceitavam o papel de capacho. Muitas vezes o aperitivo-capacho tinha melhor qualidade artística do que o prato principal alienígena.

O excessivo número de partidos políticos que se aliaram ao projeto de poder em curso, certamente vai anestesiar a comunidade cultural crítica. Tolerância e paciência deverão ser as tônicas que podem desembocar no conformismo. Algumas vozes isoladas, entretanto, não se intimidarão: soarão, implacáveis, como destoantes no marasmo atônito que marchará rumo ao arrependimento.

O monstro desconjuntado do executivo ficará incólume, transferindo toda a revolta da população para o legislativo. A cabeça grande e achatada ficará tonta. As manoplas ficarão leves. Os eletrodos do pescoço darão choques mortais no endividamento público. O andar desajeitado se afinará com o caminhar maljeitoso do outro monstro: o federal. Mas o monstro se consolidará como unidade. Suas partes, verdadeiros corpos estranhos que normalmente seriam rejeitados por um organismo sadio, se ajustarão em torno de objetivo comum: a Copa e as eleições de 2014 e a efervescência da monocultura pop para inglês ver.

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