Plínio o novo, o Elefante e o velho Chico

Jorge Antunes
militante do PSOL/DF

 

Plínio, o novo, disse: “… não vou andar em cima de um elefante na avenida Getúlio Vargas para atrair público para a panfletagem.”

Com todo respeito ao combativo e querido companheiro, eu digo que isso é muito grave. Creio que, para atrair público para a panfletagem e para os comícios, nossa militância pode e deve andar em cima de cavalos, mulas, carroças, elefantes, carros de som, tanques, palanques, camelos e tudo mais em que se possa ficar em cima. Indico uma única exceção: muro.

A metáfora de Plínio pode esconder muitos preconceitos. Qual é o problema que existe no fato de um revolucionário, que tem mensagens, idéias e propostas a difundir, montar num elefante? A questão estética entra logo em jogo. Devemos combater a terrível sisudez ideológica, panfletária e revolucionária. A luta deve ser estetizada. Penso logo que Plínio talvez pudesse voltar-se contra o eventual apoio de uma trupe circense que, engajada na luta, quisesse desfilar conosco na rua com seus palhaços, pôneis, pernas de pau, elefantes e malabaristas.

Vejo como muito esdrúxulos o diálogo e a troca de cartas que têm acontecido entre o velho Chico e Plinio o novo. Não me refiro ao diálogo em si, pois isso é sempre salutar, mas ao teor, ao conteúdo das mensagens.

Plínio diz que sua crítica a Lula é explicita desde 1998, quando foi rejeitada a proposta de campanha feita por ele. A rejeição de uma proposta de campanha é motivo para críticas? Eu também, em 1998, tive minha proposta de jingle rejeitada pela coordenação de campanha de Lula. Tive um trabalho danado para compor e gravar o jingle. Os marqueteiros preferiram outro jingle. Não critiquei Lula por isso. Critiquei Lula, sim, quando ele começou a procurar desesperadamente um empresário para ser seu vice. Critiquei-o quando ele apontou o dedo para aquilo a que ele chamou de “o empresário bonzinho”. Eu repito o que disse recentemente em outro artigo: não se fazem mais josésdealencares como antigamente.

Plínio diz também que Lula desertou do socialismo. Como assim? Lula nunca foi socialista. Ele nunca se disse socialista. Ele chegou até mesmo a declarar isso publicamente: disse nunca ter sido socialista. Lula declara que era simplesmente um operário que lutava contra a ditadura militar. Ora! Isso quase todos fazíamos. Só alguns militares não lutavam contra o regime militar.

Plínio, em seu texto, mais uma vez tenta alimentar a cizânia interna, contrapondo os valores políticos e éticos a ações de uma determinada corrente do PSol. Não dá para pensarmos em ter, no PSOL, um candidato à presidência da República que não se preocupe em unir o partido.

Ele diz que o dever do socialista é conscientizar a população e que esse é o objetivo principal. Só isso? Uma nova sociedade, a qual sonhamos construir, só surgirá quando uma educação socialista estiver ao alcance de todas as novas gerações. Nada assegura a convicção de que a população não esteja conscientizada. É de pequenino que se torce o pepino. Esta sociedade de adultos que aí está, possivelmente conscientizada em sua maioria, talvez já tenha feito sua opção política.

Plínio, o novo, jovial e atuante, diz que a educação pública não é incompatível com as escolas comunitárias confessionais. Isso precisaria ser muito bem discutido no interior do partido. As escolas comunitárias e as confessionais alijaram a palavra “lucro” de seus dicionários. Elas, espertamente, preferem usar a expressão “excedentes financeiros”. Em “lobby confessional” magistralmente montado, padres, pastores e outros comerciantes da religião conseguiram incrustar a expressão na lei.

Plínio tropeça nas pedras jogadas contra o ensino público e gratuito, quando diz que defenderá os itens do programa do Andes. O companheiro deveria ler melhor o referido programa, para conhecer as denúncias que o Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior fazem contra a política governamental que instituiu o Prouni e enxertou os vendilhões confessionais da educação nas benesses da privatização do ensino público.

Após esses prolegômenos de análise da questão Plínio e da questão Elefante, detenho-me a seguir na questão do velho Chico. Este valoroso companheiro acha que existe crise até mesmo no significado de “socialismo”. Isso é lamentável. Todo militante tem esse conceito muito claro em sua cartilha. Não há porque ter dúvidas acerca da possibilidade de construção de uma sociedade justa, fraterna, igualitária, solidária, não competitiva, em que cada um produzirá conforme suas forças e em que cada um terá a vida dignificada conforme suas necessidades.

Chico diz que o governo Lula promove assistência real a setores dos espoliados. Afirma ele que essa “assistência real” é base para a popularidade de Lula. É lamentável essa análise. Precisamos de tribunos que denunciem o assistencialismo anestesiante praticado por canalhas que dão o peixe, ao invés de ensinarem a pescar.

Chico concorda com Plínio na avaliação de que, para a sobrevivência do partido com um pé na institucionaldade, é prioritário eleger parlamentares. Essa preocupação de se ter um “pé na institucionalidade” é preocupante e também precisa ser discutida internamente. É bem verdade que esse pé na institucionalidade tem permitido dar emprego em gabinetes que congregam militantes profissionais. Mas, entendo eu, a luta forte e coesa pelo socialismo só crescerá quando pudermos compor uma tropa de lutadores espontâneos, idealistas, não profissionais, que dediquem parte de sua vida, e não necessariamente toda ela, à causa libertária.

Chico duvida da viabilidade de uma estatização de toda a educação e da saúde, em um quadriênio. Não há porque desacreditar na exequibilidade de metas que são caras à população, que são esperadas com ansiedade há décadas pelo povo.

Mas, apesar das controvérsias, das inconsistências de propostas, críticas e argumentos, as contribuições que os debatedores têm colocado na pauta são maravilhosamente pertinentes e oportunas. Tudo nos leva a crer que a Conferência Nacional do PSOL será riquíssima no debate e que uma plataforma e uma candidatura serão construídas de modo coeso e fraterno.

Também acreditamos que, ao término da Conferência, todo o partido, todas as nossas correntes, todos os nossos coletivos, toda a nossa militância, estaremos alinhados em torno de uma única política, de uma única plataforma e de uma única coleção de lemas e consígnas. Isso é o que nos é garantido pela nossa conhecida honestidade, fidelidade e disciplina partidárias.

Portanto, a única coisa que nos falta é encontrar um bom porta-voz que levará ao povo brasileiro tudo aquilo que terá sido acordado na Conferência Eleitoral Nacional do PSOL. Temos, há muito tempo, esse porta-voz ideal. Estou me referindo ao mestre da retórica, o companheiro Martiniano Cavalcante.

Quem já ouviu um discurso de Martiniano, sabe do que estou falando. Quem já assistiu uma performance retórica de Martiniano e que já se emocionou e se arrepiou com sua verve, sabe do que estou falando. Para passar nossa ideologia e nossas propostas nos palanques, no rádio e na TV, Martiniano é aquele que pode persuadir, emocionar, seduzir, convencer. É ele o único que é capaz de dizer, sob o ponto de vista conteudístico e formal, tudo aquilo que Heloisa Helena diria, mas com o valor agregado que falta a Heloisa: a poesia e a ternura. Esses dois pequenos elementos constituem a fórmula que falta para alcançarmos definitivamente os corações e o imaginário do povo brasileiro. Eis aqui, de novo, a questão estética que abordei no início deste texto.

Ao final da Conferência, após o anúncio do nome escolhido para ser o nosso candidato à Presidência da República, apenas uma frase nós, militantes, poderemos dirigir ao povo. Eis a frase: – Brasileiros! Preparem seus corações! Martiniano vai lhes falar em nome do PSOL!

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