Willy serve à mediocridade-1

Folha de S. Paulo
Domingo, 27 de maio de 1984   –   ILUSTRADA   –   8º caderno   –   página 69

 

Jorge Antunes

 

“Primeiramente, o que é que um compositor pensa que está fazendo? Por que e com que espírito se senta para compor? É para exprimir a profundidade de sua alma? Ou para comunicar seus pensamentos? Ou para divertir a platéia? Ou para educá-la? Ou para ficar rico e famoso? Ou para servir aos interesses da comunidade e, se for assim, de que comunidade, de que classe?”  – Com essas perguntas Willy Corrêa de Oliveira termina seu roteiro para um filme sobre Cornelius Cardew.

Willy faz as perguntas no final e não as responde. Todo o roteiro é impregnado de simples insinuações de conflito ideológico-profissional com indagações que Willy não responde e que o compositor inglês também nunca soube responder. Concordará comigo todo aquele que, como eu, conheceu pessoalmente seu trabalho, sua “The Scratch Orchestra” e os dramas conceituais e estético-políticos do grupo. Naquela época, quando participei do Festival da SIMC com minha “Tartinia 1970” para Violino e Orquestra, Cardew ainda não era um agitador maldito. Era apenas um vanguardista que se embrenhava no estudo da religião de Confucio e que se apaixonava pela música e pelo canto dos monges tibetanos. Cardew, tal como eu, buscava uma música cujos intérpretes poderiam ser quaisquer pessoas sensíveis, sem formação musical, com um instrumental essencialmente ruidoso (percussivo), que povoasse o silêncio com o som primitivo e complexo de uma orquestra de fontes sonoras inusitadas.

Em 1977, Cardew abandonava o convívio das “platéias elitistas”, estudava a língua chinesa e abraçava o ativismo político. O tipo de música que começou a fazer passou a ser o panfletário nada artístico, chegando mesmo a, ao invés de compor músicas, adaptar textos panfletários a melodias conhecidas, em forma de paráfrases e paródias, sem a menor preocupação artística.

Na medida em que a profissão de músico e a atividade de compositor devem ser consideradas trincheiras bastante dignas, considero aquele posicionamento uma verdadeira deserção que leva ao imobilismo e à mediocridade. As perguntas do artigo-roteiro de Willy não serão convite à reflexão, pois, apresentadas e não respondidas por um dos velhos guias da vanguarda musical paulista, haverão de provocar  o desnorteio e o imobilismo das novas gerações.

A crise enfrentada por “musicopatas” e “estetopatas” que no passado abrilhantaram o Grupo Música Nova de Santos deve ficar restrita às suas próprias cismas e reflexões. Caso contrário, novas gerações ávidas de gurus e novos modelos correm o risco de ser enganadas e desviadas do bom rumo. Esperemos que todo aquele que estiver em crise fique trancado em seu quarto inventando “letras” novas para o “Atirei o Pau no Gato”, para o “O Tannembaum”, para o “Índio Quer Apito”, e que não passe adiante as novas “obras”. Se pelo menos campeasse a originalidade e a invenção melódica! Mas sem isso! Esperemos que todo aquele que estiver perdido fique especulando em sua escrivaninha com as reformas ortográficas de Qorpo Santo, mas que depois amasse a papelada e jogue fora. Nem todos são surdos, havendo portanto o perigo de se alastrar a “perdição” entre os novos, em que alimentamos esperanças. É para que não se alastre o imobilismo, a mediocridade e a deserção dos novos, que aqui pretendo dar resposta às perguntas de Willy-Cardew.

Defendo o engajameneo político do compositor. Isso não tem nada a ver com eventuais neostalinismos ou neojdanovismos. Em 1948, poucos meses antes de morrer, Jdanov, o grotesco auxiliar de Stalin, fez o discurso que sensibilizou a vanguarda brasileira, mergulhando-a nas fontes folclóricas e politizando-a ao extremo. Foi naquela vanguarda politizada e ativista que minha juventude se espelhou venerandamene. Essa veneração foi o motivo de minha grande revolta, naquele famoso debate da Sala Guiomar Novaes, no Rio, em 1979, quando chamei o ex-companheiro de “prostituta arrependida” quando ele, cooptado, renegou todo o passado de luta, passado que eu tinha como modelo num pedestal. Jdanov exaltava o novo, defendia o melodismo, o “epigonismo” e condenava o ruído e o naturalismo (justamente quando Schaeffer partia para o uso sistemático do ruído, revivendo involuntariamente Luigi Russolo). Andrei Jdanov, em seu sexto mandamento, condenava o uso “impróprio” do instrumento musical, talvez já tendo notícias do piano preparado de John Cage.

Entendo que, hoje, todos os sete mandamentos de Jdanov, preconizados há 36 anos, devem ser desobedecidos, exatamente para que se alcance o grande objetivo já ali defendido: o ouvido político tão sensível quanto o ouvido musical, para que a aproximação com a massa popular seja permanente. Não apenas o canto tonal atinge a emoção humana da massa. O povo hoje se identifica e se emociona com o som eletrônico, a cuíca, o rufo, o sussurro, o estalo, o murmúrio, a buzina de automóvel e a caçarola.

Mas o engajamento político, para o bom direcionamento da massa, com sua conscientização, não pode se calcar no caso Wagner, onde o político nunca esteve no musical e a ideologia sempre descambou para o escorregadio. O Wagner que se entrincheirou nas ruas de Dresde ao lado de Bakunin, e que desfrutou da amizade de Luís 2º da Baviera, se assemelha ao caso do compositor brasileiro que desfruta da amizade do Golbery e se entrincheirou ao lado de Darcy Ribeiro. O engajamento político, hoje, também não pode seguir os ditames do CPC, do Carlos Lira e cia., onde o panfletário não continha o artístico, e também não pode adotar o metafórico do tropicalismo, com o ardil de tentar driblar a censura, porque os recados truncados não chegam a passar, por mais que se fique de “olho na fresta” (apud Gilberto Vasconcelos) e, pior que isso, a metáfora ali contém elipses tão herméticas que a obra pode muito bem tornar-se hino tanto da esquerda quanto da direita.

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